Autopublicação e redes sociais


Literatura nas redes sociais

Uma pesquisa conduzida por Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Pesquisas sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, mapeou o conteúdo ligado à literatura nas redes sociais mais usadas no Brasil. O estudo “Literatura, Twitter e Facebook: A Economia dos Likes e dos Rts dos Usuários de Literatura Brasileira nas Redes Sociais” mostra que certos autores brasileiros são muito populares na internet, mesmo que a partir de fragmentos de suas obras.

O pesquisador analisa perfis de autores brasileiros já falecidos, que geralmente são administrados por literatos ou escritores. Atualmente* o perfil da escritora Clarice Lispector tem mais de 1,2 milhões de seguidores no Facebook, Caio Fernando Abreu, 649 mil, Carlos Drummond de Andrade, 200 mil, Machado de Assis 570 mil e Paulo Leminski 129 mil – isso considerando apenas o perfil mais numeroso, pois a maioria deles tem mais de uma página, administradas por diferentes pessoas. Malini diz que para os autores mortos, essa “presença” nas redes sociais tem um papel de reavivar um certo tipo de leitura que até então não existia.

Em tese, a grande audiência dos posts com excertos das obras tem potencial de fomentar o interesse do público pelo conteúdo do livro na íntegra. E há mesmo exemplos disso: tomemos o caso  das frequentes citações de Paulo Leminski na época das manifestações do “Passe Livre”, que tomaram as ruas do país em junho de 2013, como uma provável influência para a edição de “Toda poesia”, que, aliás, passou diversas semanas na lista dos mais vendidos, chegando até mesmo a superar o fenômeno “Cinqüenta Tons de Cinza”. 

No caso de jovens leitores que costumam ler obras relacionadas com séries e/ou games existe uma relação de fã, que é bastante estimulada pelas redes sociais e de fato impulsiona vendas. Quem fala disso é a editora-executiva do selo Galera Record, Ana Lima, nesta entrevista ao site O Globo.

A visão do pesquisador Fabio Malini é de que as redes sociais têm contribuído para a popularização da poesia brasileira e que considerar as redes como um modo de consumo superficial de literatura é uma abordagem tão simplista como acreditar que só o livro oferece leitura de qualidade. Segundo ele “as redes sociais são portas de entrada para leitores, escritores e críticos, democratizando o consumo e a produção literária.”

leia um pouco mais nesta matéria de Andressa Monteiro.

 Autopublicação e redes sociais

Agora falando um pouco dos autores vivos, alguns até bastante badalados nestas mesmas redes sociais ou na mídia em geral, li há tempos atrás uma crítica bastante polêmica (que não consegui reencontrar porque não tenho certeza da autoria) afirmando que os autores brasileiros contemporâneos simplesmente não são lidos, mesmo com toda a visibilidade que o crescente número de feiras e eventos literários propicia (não se referia aos autores de livros  juvenis ou literatura de nicho como fantasia ou Sci-Fi, naturalmente). Há ecos dessa visão nesta matéria sobre o jornal de crítica literária O rascunho.

Isto pode ser conectado com a análise do papel da literatura na web, onde muitas vezes um determinado autor ou obra são muito “curtidos” sem que, necessariamente, isso se reflita em vendas de livros e/ou na leitura dos mesmos. Luciana Villas Boas, em  uma matéria na Folha, menciona que há autores com pouco mais ou pouco menos de mil exemplares vendidos no Brasil que acabam sendo traduzidos no exterior – o que pode ser uma glória para muitos, mas convenhamos, um tanto ilusória (que rima infame!). Esta aparente incoerência entre a popularidade na mídia, especialmente nas redes sociais, e o volume de leitores leva, necessariamente, a algumas análises críticas sobre esse papel das redes sociais para o escritor comum (= não mainstream). 

Ou seja, será que as redes sociais são mesmo o caminho das pedras para a divulgação de autores independentes? Vamos analisar alguns aspectos a seguir.

Como falar do seu livro nas redes sociais

Escritores independente-iniciantes-aspirantes que costumam buscar informações sobre formas de divulgar seu trabalho já devem estar acostumados a ler sobre as promessas de horizonte ilimitado trazidas pela dobradinha autopublicação e redes sociais – tanto para livros impressos como para e-books. Mas, será que autopublicação e redes sociais são coisas inseparáveis e sinônimo de sucesso?

Dez entre dez posts com dicas para escritores independentes falam sobre as formas de divulgar a obra, construir audiência e/ou vender livros e incluem referências ao uso das redes sociais.

É verdade que muitas destas dicas são lúcidas o bastante para alertar o autor sobre o inconveniente de simplesmente sair postando o antipático “compre meu livro” de modo insistente na timeline de amigos, grupos e fóruns. Qual é o caminho, então? Engajamento, ora!

Qual a relação de tempo x benefício?

O que poucas dessas fontes de dicas (muitas delas realmente preciosas) não especifica é o que exatamente significa engajar-se e conquistar uma audiência; e mais, quanto tempo pode levar para que isso aconteça.

Meu site, por exemplo, só atingiu um nível razoável de tráfego (em torno de 150 visitas diárias, o que é muitíssimo modesto para chamar a atenção de qualquer editor, por exemplo) após cerca de 2 anos de existência sendo abastecido regularmente com conteúdo inédito. Claro que o resultado talvez chegasse antes se os posts fossem diários ao invés de quinzenais (com vários períodos de silêncio impostos pela falta de tempo + disciplina), mas posts diários significam, numa previsão otimista, pelo menos 1 hora investida em pesquisa, crição, edição e revisão.

Conquistar audiência em redes sociais não é muito diferente, ou pode ser até mais demandante, pois exigirá disponibilidade para interação. Não basta postar links interessantes ou mesmo conteúdo exclusivo se você não identificar seu público alvo ou seus influenciadores e puder interagir com eles de modo produtivo (isso significa tempo online e  muito bom senso para não se tornar um chupim virtual (chupim é uma espécie de ave conhecida pelo hábito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para que as mesmas possam chocá-los, criá-los e alimentá-los como filhotes; daí que seu nome virou sinônimo de aproveitador).

Qual sua disponibilidade para investimento?

Ah, mas se não há tempo para construir relações virtuais produtivas, podemos utilizar os posts patrocinados, certo? O facebook costuma nos mostrar o potencial de abrangência e impacto nas vendas de sua empresa (sim, para todos os efeitos um autor independente pode ser mesmo encarado como uma empresa), estimulando-nos a impulsionar nossas publicações. O alcance realmente pode ser elevado, com poucos reais é possível atingir centenas de milhares de pessoas, das quais uma certa parcela (em torno de 3%) poderá clicar no seu anúncio ou post patrocinado, curtir ou mesmo compartilhar o conteúdo, alavancando ainda o alcance orgânico (não pago). Destes 3%, aproximadamente 8% poderão efetivamente ler/ baixar ou comprar o seu livro. Esta análise é baseada no último post patrocinado que fiz para o e-book que participou do concurso Brasil em Prosa e não difere muito de outros conteúdos patrocinados que utilizei e não tinham a ver com vendas.

Desanimou com os percentuais? Não encare dessa forma, as postagens em redes sociais não precisam (talvez não devam) ser vistas como canal de vendas, mas como estímulo à interação com o seu conteúdo/ site. Ah sim… já ia esquecendo: é preciso ter um site, blog ou o que seja, pois só a rede social sozinha não fará você construir um vínculo com seu público potencial.

Que ferramentas você precisa aprender a usar?

Quando se trata de atrair tráfego para seu blog, site ou canal no youtube, as redes são importantes, mas a rede com melhor efetividade pode variar conforme o seu público. Assim, é importante você aprender a analisar isso, com ferramentas como o Google Analytics, por exemplo. Se  você gastar algum tempo analisando dados no google analytics poderá notar diferenças na taxa de rejeição (porcentagem de visitas a uma única página, ou seja, visitas nas quais a pessoa sai de seu site na mesma da página de entrada, sem interagir) conforme a origem das visitas. No caso do meu site mauremkayna.com, para as visitas oriundas do facebook a taxa de rejeição é o dobro da observada para visitas que vem do twitter ou do Google+. Isso, parece-me, tem a ver com o perfil de usuários de cada rede e ajuda a direcionar o investimento de tempo em cada rede. Por isso é tão importante para o escritor saber qual o perfil de leitores que deseja atrair e onde eles gastam mais tempo em termos de redes sociais. Não é tarefa fácil e, de novo, requer tempo e atenção, aliás… os mesmos insumos de que precisamos para criar.

Por onde começar?

Não deve ser novidade para ninguém que sucesso (audiência e/ou leitores e vendas) dificilmente cai do céu, de graça. Invariavelmente, alcançar bons resultados depende de investimento, teimosia e uma certa dose de acaso. Você pode decidir arriscar na autopublicação sem muito planejamento e simplesmente esperar o que pode acontecer (possivelmente nada), mas é recomendável que voce inicie buscando informação. Pesquise sobre autores independentes na sua linha de criação e procure entender suas estratégias, seus erros e acertos, mas não se esqueça de que nada disso vai funcionar se você não pensar também a própria criação e sua qualidade.

 

 

 

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