O que aprendi no concurso literário da Amazon


Um concurso literário para Autores independentes

Concursos literários continuam sendo uma possibilidade de conseguir visibilidade para autores iniciantes. Entretanto, a participação em concursos não pode ser encarada como a única e final cartada capaz de fazer a sua obra ser lida. Ou seja: use com moderação (emocional) e use como aprendizado, sempre.

Para quem está se aventurando na publicação em e-book, o ano de 2015 teve um evento significativo, o Concurso Brasil em Prosa, da Amazon + O Globo + Samsung, que teve como jurados o escritor e crítico literário José Castello e a escritora premiada Carola Saavedra. Não foi o primeiro concurso focado em publicações digitais, mas certamente foi dos mais relevantes por conta do espaço que a Amazon ocupa neste mercado. E é por causa dessa relevância que considerei válido partilhar com outros escritores o que aprendi no concurso da Amazon.

Entenda os objetivos do concurso

Toda e qualquer instituição que lance um concurso literário tem um objetivo em mente. Institutos, Casas de Cultura e outras instituições culturais podem estar focadas simplesmente na promoção da literatura, no estímulo à criatividade e na descoberta de novos talentos. Empresas, de qualquer porte, podem incluir esses objetivos no seu planejamento, mas certamente haverá propósitos comerciais atrelados. Isso é natural e esperado, não é nenhum crime, mas é fundamental que o escritor que decide participar esteja ciente disso para que possa, inclusive, avaliar se vale a pena participar considerando seus próprios objetivos.

No caso do Brasil em Prosa,  o anúncio foi muito honesto e reconhecia já nas regras de participação as suas intenções de alavancar o consumo de obras digitais e atrair novos escritores para sua plataforma de selfpublishing da Amazon – o Kindle Direct Publishing (KDP) – além de informar que o potencial de vendas seria utilizado como critério de avaliação.

Para a Amazon o concurso parece ter sido um grande experimento (bem sucedido, aliás) para entender o perfil e os potenciais da autopublicação de ficção no cenário brasileiro, que difere enormemente do mercado americano.

Em relação aos escritores,  ganhou quem encarou a participação no concurso da mesma forma, ou seja, como um teste da ferramenta de autopublicação e de suas possibilidades de divulgação / promoção. Uma diferença sensível, porém, é que esse tipo de concurso exige da parte do escritor uma ação constante durante o período do certame, pois, ainda que os aspectos literários estivessem em pauta, era preciso se preocupar com a promoção de vendas e angariar avaliações do texto para alimentar a chance de passar para o grupo de finalistas.

Houve contos que foram desclassificados porque desrespeitaram as regras (precificação, número de caracteres, uso da hashtag brasilemprosa), mas independente disso, é provável que grande parte dos mais de 6,4 mil contos que concorreram não tenham sido sequer lidos pelos jurados, pois a Amazon, possivelmente, filtrou os autores com maior capacidade de mobilização de público e dentre estes deu-se a avaliação literária. Esta é, talvez de modo simplista, uma representação do funcionamento do mercado de e-books de ficção, onde os títulos que tem mais vendas e melhores avaliações dos leitores ficam mais “expostos” nas lojas virtuais, aumentando as chances de outros leitores encontrarem esses títulos.

O que significa estar no comando da publicação?

Já ouviu aquela máxima “Maiores poderes = maiores responsabilidades”? Pois aplica-se totalmente à autopublicação. O escritor passa a ter o poder de se publicar, sem precisar do aval de uma editora, mas isso significa que, para alcançar algum resultado, terá de assumir também todas as responsabilidades ou atividades que se esperaria de uma editora. Isso inclui uma série de tarefas antes e depois da disponibilização do e-book na livraria online.

No caso da participação em um concurso, a coisa começa pela atenção às regras. Durante o período do concurso Brasil em prosa, fiz várias incursões em meio aos milhares de contos inscritos (mais de 6,4 mil) e notei que muitos autores se portaram como muito maus leitores (não assimilaram as regras do concurso), enquanto outros se dispuseram a testar diferentes táticas de divulgação independente, através de suas relações pessoais, interações com outros autores, uso da ferramenta de promoção da plataforma e até envio de brindes físicos para clientes que evidenciassem a compra (através de blogs).

Naturalmente tudo fica mais fácil para escritores que já conseguiram construir uma base de fãs, mas não pensem aqueles que não possuem essa base que isso é resultado da sorte. Uma base de leitores é construída ao longo do tempo através de blogs e canais no youtube, participação em listas de discussão e eventos presenciais, ou seja, é fruto de trabalho, persistência e aprendizado. Claro que, vencida esta etapa, isso se reflete diretamente no número de vendas e avaliações recebidas.

O que sugiro a quem porventura sinta certa inveja dos números alcançados por estes autores, é que aprendam a fazer com quem já testou e errou ou inventem o seu próprio jeito de fazer marketing literário, caso seu objetivo prioritário seja vender.  Não que seja fácil e/ou rápido. Não é, mas cruzar os braços e esperar significa que nada vai acontecer. Tá, tem uma chance (parecida com a que existe no caso das loterias) do seu e-book ser descoberto e de um ou mais leitores influentes amarem e contarem para todo mundo, mas, convenhamos, isso é pouco provável, não!?

Que tipo de divulgação funciona?

Para quem já possui uma audiência com a qual interage rotineiramente, isso é muito mais fácil, claro. Mas no tocante a escritores de ficção literária (aquilo que não é nicho como fantasia, terror, erótico, juvenil ou infanto-juvenil) essa prática não parece ser tão frequente.

Assim, as dicas que deixo talvez não sirvam para todos, mas falo a partir de experiência prática e de perguntas que fiz a mim mesma: Qual o preço a estabelecer, que redes sociais funcionam melhor para divulgação do e-book, qual o público dentre seus contatos que está aberto ao formato eletrônico?

Redes sociais

Não abuse e não espere demais. Postar compulsivamente o link do seu e-book não fará com que todos os seus amigos curtam, comprem ou comentem o mesmo, por duas razões: 1) nem tudo que você posta é visualizado por todas as suas relações, especialmente no facebook; e 2) e-books ainda não são plenamente populares no Brasil.

O recurso de marcar as pessoas para forçá-las a visualizar o que você postou deve ser usado com muita cautela, pois a maioria das pessoas pode achar isso invasivo. Então, só faça se tiver 100% de certeza que a pessoa tem interesse no assunto.

Preço dos e-books

O concurso Brasil em Prosa previa o intervalo entre R$ 1,99 e R$5,99. Ao longo do período de inscrições, fiz testes variando o preço, mas usando o intervalo mínimo permitido e o máximo de R$2,99 (afinal de contas é apenas um único conto, com apenas 6 mil caracteres) e utilizei dois períodos de distribuição gratuita (a plataforma permite um total de 5 dias de download gratuito a cada 3 meses).

#brasilemprosa

#brasilemprosa

As vendas crescem no período imediatamente após as distribuições gratuitas e a partir de divulgações espontâneas em redes sociais. Poucas vendas aconteceram a partir da divulgação direta feita por mim, a maioria ocorreu quando outras pessoas (conhecidas ou não) fizeram algum comentário sobre o conto.

 

Não percebi qualquer correlação entre as variações de preço que utilizei e o resultado em vendas. Atualmente o e-book está no preço mínimo de R$1,99 e quem quiser conferir, aqui está o link do conto Tereza:

Por quanto tempo é possível sustentar uma rotina de desistências, esperas e adiamentos? Até onde leva uma decepção? Sente-se à mesa com Tereza e descubra.

 

Os ganhos além da seleção ou da vitória

Os leitores mais curiosos e interessados no tema poderão até já ter ido conferir os vencedores do concurso e verificar que eu não fiquei sequer entre os 20 finalistas. Então, que diabos teria eu a “ensinar” a respeito? Pois, se me permitem a petulância, o aprendizado inclui justamente algo que se relaciona à “não vitória”. Sumarizo, então, através de cinco dicas o que ganhei /aprendi neste concurso:

  1. Em qualquer concurso do qual participar, não espere a vitória, ela é sempre pouco provável, por mais que você acredite no seu texto;
  2. Aproveite o exercício de reescrita e revisão que obrigatoriamente precede a submissão do texto;
  3. Exercite, no caso das plataformas de autopublicação, as ferramentas de promoção e aprenda o que funciona para o seu perfil;
  4. Interaja com outros participantes, leia outros contos, avalie-os com honestidade (ou seja, sem bajulação interesseira nem avacalhação gratuita). Daí pode surgir tanto o crescimento do seu próprio texto como amizades literárias valiosas, novos projetos, parcerias e frutos que você sequer imagina antes de se permitir a troca com outros escritores;
  5. Avalie, nas próximas publicações em e-book, a adesão ao KDP Select*. Já critiquei essa exclusividade em outros artigos, mas no caso dos contos avulsos, confesso que faturei mais com o pagamento do Fundo Global do KDP Select do que diretamente com os royalties dos e-books vendidos.

 

* O KDP Select é um programa da plataforma de autopublicação da Amazon que exige que você disponibilize seu e-book apenas na loja da Amazon, mas em troca possibilita o uso de ferramentas de promoção como o download gratuito por tempo limitado e distribui periodicamente um bônus aos autores participantes, onde um fundo milionário é dividido de modo proporcional ao número de páginas lidas da sua obra (sim… eles conseguem rastrear isso com cada um dos seus leitores / clientes). O valor deste Fundo Global em Dez/15 era de R$46,8 milhões.

 

 

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