Prós e contras da autopublicação


Discussões sobre Autopublicação

Tenho lido muito sobre diferentes experiências de publicação independente, desde aquelas em que o autor banca a publicação, mesmo sendo via editora (que na verdade é uma prestadora de serviços de edição / impressão) ou aquelas onde autor se vira com a maior parte das etapas envolvidas na publicação e gerencia diretamente as vendas através de plataformas de publicação de e-books ou do seu próprio site e contatos, com direito a bater de porta em porta de livrarias, no caso de uma versão impressa.

Os grupos de debate no linkedin são uma boa fonte de informação sobre os resultados desse tipo de empreendimento. Pena que todos os grupos dos quais participo são em inglês. E o lamentável disso não é sequer a enorme diferença do cenário (mercado editorial, perfil de leitores e mesmo de autores) em outros países, mas o fato de não ter encontrado grupo similar, bem estruturado e rico em conteúdo, aqui no Brasil.

Trago à tona aqui duas manifestações que me fisgaram a atenção no grupo Ebooks, Ebooks Readers, Digital Books and Digital Content. O relato de John Winters, no bem humorado artigo “I´m a self-publishing failure” e o debate iniciado por um camarada chamado Paul, com o provocante título ” Does Anyone Really Believe it’s That Easy?” (em livre tradução, algo como “Sou um autor independente fracasso” e “Alguém realmente acredita que é assim tão fácil?”).

Altas expectativas, grandes frustrações

O artigo de John Winters conta sua saga como autor que decidiu investir na publicação do seu primeiro livro, cujos originais haviam sido recusados por algumas editoras. Ele tira sarro da vaidade que nos permeia a quase todos e contrapõem os esforços com divulgação em blogs e uso de publicidade paga no google e facebook com os resultados pífios que obteve. Apresenta dados sobre a publicação de seu livro (com versão impressa e e-book) e vendas obtidas (ou seria melhor dizer, não obtidas?) e nos faz pensar sobre toda a badalação que vem sendo feita em torno desse “novo” modelo de publicação onde o autor é dono do processo.

Durante um bom tempo ele simplesmente não teve venda alguma. Até que um dia, ao acompanhar os boletins da Amazon, verificou a venda de 11 exemplares em um único dia (da versão impressa) e voltou a ter esperanças de alcançar o estrelato literário (isso existe?). Como seria prudente esperar, as vendas voltaram ao patamar anterior. Eis que um novo milagre infla suas expectativas: um  leitor desconhecido lhe atribui uma customer review muito favorável no site da Amazon. Mas esse sopro, pelo que John nos confidencia, não gera senão o seu investimento em divulgação, apelando para publicação de vídeos caseiros (ao que parece, beirando o ridículo) e investindo alguns dólares em propaganda online com resultado zero em termos de vendas. Por fim, apesar de todos os insucessos que ele conta, levando-nos a concluir sobre a improbabilidade de que algo venha a dar certo com as ferramentas que ele usou (pelo menos da forma como ele as empregou), ele termina dizendo que está seguindo o conselho de um agente que consultou em algum momento da sua aventura e preparando duas sequências para o livro (Murderhouse Blues), formando uma trilogia com data prevista de lançamento dos livros II e III.  A justificativa do conselheiro é que trilogias tem maiores chances de angariar boas vendas. Insano? Não tiremos conclusões apressadas, façamos uma pausa para refletir.

Já o debate no grupo do linkedin, inicia com o desabafo de Paul sobre o tempo que já dispendeu blogando e interagindo em redes sociais, no afã de divulgar sua publicação. Mas, segundo ele, o “custo / benefício” desse investimento não se mostra nada compensador. Ele não abre números de vendas, mas faz as seguintes relações de proporção para seus esforços:

  • uma customer review na Amazon para cada 300 a 500 e-books que as pessoas tenham baixado grátis (ele mesmo disponibilizou o e-book para download);
  • um comentário a cada par de dias para cada postagem no blog ;
  • um clique nos seus links postados no twitter a cada 20 tweets diários (mas nem sempre o usuário comenta ou lê na íntegra o post para o qual foi direcionado.

Sua experiência com grupos de discussão não é muito melhor que isso. Os 59 comentários em resposta às queixas de Paul incluem críticas ao vitimismo e sugestões de contratação de um profissional de marketing para tratar da divulgação de suas publicações.  O fato que todas denunciam é que a probabilidade de um autor independente (e isso também vale para autores bancados por editoras) se transformar em um nome de sucesso é baixíssimo.

Como em qualquer profissão do mundo, aliás. Existem zilhões de engenheiros mundo afora: a) um grande número deles é medíocre ou até mesmo incompetente; b) um número igualmente grande, ou até maior (espero) é competente no que faz, mas nunca de destacará, cumprirá decentemente o seu papel; c) alguns, ganharão destaque na carreira e podem ter um bom ganho financeiro; e d) um número muito pequeno dessa gama de engenheiros poderá entrar para a história de sua profissão. Com escritores não é diferente e você e eu temos mais probabilidade de nos mantermos nos grupos a e b (de preferência no b, ao menos!) do que alcançarmos os grupos c e d. Aliás, há quem diga que vivemos em um tempo em que dificilmente teremos novos grandes mestres da literatura surgindo e se destacando – seja porque o número de autores cresce exponencialmente, seja pela fugacidade que se torna a marca de tudo quanto se produz nos dias que correm.

O que podemos aprender com os erros alheios?

Mas, voltando à riqueza do debate e algumas das possíveis conclusões… Foram levantadas questões como: qual a proporção de autopublicados que utilizou um serviço profissional para a capa de seu livro? E para a diagramação? Revisão gramatical e do texto em si? A qual público se dirigem os autores nas redes sociais (falar apenas entre escritores ávidos pelo mesmo objetivo não é a opção com maiores chances, naturalmente)? Qual o apelo do texto que está sendo divulgado, ou, trocando em miúdos, há público para o seu livro?

Tentando costurar as duas fontes, faço um resumo dos resultados de meus próprios (e desordenados) esforços para alcançar leitores ao longo de pouco mais de dois anos, listando alguns dados analisando, de forma tão isenta quanto possível, cada situação.

O e-book Pedaços de Possibilidade, lançado em 2010, depois de ter passado por diferentes modelos de venda, ter sido distribuído gratuitamente e voltar (com diagramação nova e muito caprichada) para as principais plataformas de venda online vendeu pouco mais de uma centena de exemplares. Em compensação, em site que distribui livros piratas, houve mais de 2,6 mil downloads do e-book (depois de encontrar meu e-book lá, preferi autorizar o dono do site a distribuí-lo do que reclamar de pirataria)

Os fatos? Nenhum plano de divulgação estruturado, apenas e-mails enviados para os mais chegados, alguns tweets esporádicos e divulgação ainda menos organizada via fan page no facebook.

Cheguei a enviar exemplares para potenciais formadores de opinião, mas conheço poucos e pensando, por exemplo, no percentual de alcance de uma newsletter, onde no máximo 30% dos destinários chega a abrir o e-mail (nem me refiro a ler o material), para ter retorno com essa ação, precisaria de uma lista considerável de leitores qualificados (e adeptos ao e-book) para esperar que uns 5 ou 6 chegassem a abrir o arquivo digital e ler o e-book.

E vocês devem estar se perguntando por que diabos, sabendo disso, não me dediquei a fazê-lo? Bem, a resposta mais rápida que me ocorre é que isso toma tempo e exige organização e persistência (e a tranquilidade de saber que ainda assim não há garantia alguma de que algum desses leitores relevantes vá gostar do que escrevi).

Então vocês podem estar fazendo outra pergunta: por quê, então, insisto com esse livro? Há o tolo fator afetivo e um pequeno indício de seu potencial pelo fato dele ter ficado entre os finalistas de um prêmio literário relevante – o Prêmio Sesc de Literatura 2009.

E por que, num espaço em que pretendo ajudar autores independentes, utilizo justamente um exemplo de relativo insucesso? Para alertá-los de que o caminho é possível, mas não é fácil e se não houver muita organização e persistência – eu disse MUITA! – não há qualquer chance de dar certo.

Distribuição gratuita

Se a sua expectativa não tem a ver com ganhar dinheiro com seu livro, mas tornar seu nome mais conhecido ou simplesmente ser lido, a distribuição de e-book gratuito pode ser uma boa ferramenta. Fiz uma experiência também nessa direção, com a obra Contos.com, que eu mesma o produzi, em dois formatos – iBooks e ePub – usando software livre a plataforma de auto publicação / distribuição da Apple e meu próprio site.

Além da diversão e aprendizado que tive aprendendo como utilizar o iBooks Author e o Sigil, essa experiência me permitiu reunir uma série de contos que estava dispersa em diferentes sítios da web. Da mesma forma que no caso do Pedaços de Possibilidade, não formulei um plano de divulgação, mas o simples fato de estar disponível na iBookstore resultou num alcance de mais de 600 downloads. o que não acho desprezível para uma independente desconhecida.

Pense seus próprios objetivos e recursos!

Redes sociais? Curtidas na sua timeline não são sinônimo de leitura dos seus textos; além disso, considere que apenas um percentual muito reduzido dos seus contatos verá em suas próprias timelines o seu link (entre 12 e 15%), pois o objetivo do facebook (aquilo é uma empresa lembra?) é ganhar com publicidade, inclusive as que você bancar para ser mais visto. Mas, sim, elas podem ser uma ferramente utilíssima, desde que você consiga fazer com que as pessoas estejam engajadas com você ou seus projetos literários, ou seja, funcionam depois que algo acontecer, mas difilmente farão algo acontecer.

O objetivo desse artigo é provocar sua reflexão, favorecer a auto crítica (enquanto exercito a minha) e quiçá dar alguma ideia de como direcionar seus rumos como autor nesse mundo inóspito mas promissor (para os poucos que souberem aproveitar os caminhos disponíveis) da auto publicação. O resumo da ópera é que nenhum autor desconhecido será lido por número suficiente de leitores se não tiver um plano consistente; ter esse plano não é garantia de resultados, mas não tê-lo é garantia de que você continuará no mesmo patamar de sempre. E, por fim, cabe antes de qualquer empenho marketeiro, pensar sobre seus póprios objetivos. Por que e para quem você escreve? Pense sobre isso. Pense muito, aliás, antes mesmo de pensar em qualquer alternativa de publicação.

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